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31 de agosto de 2017

O agrônomo e o agricultor

Quando eles atuam em conjunto, nada supera a eficiência produtiva no campo e nos segmentos das cadeias produtivas de alimentos, fibras e matérias-primas as mais diversas

O sensacional desempenho do agronegócio brasileiro tem tudo a ver com esses dois profissionais. Quando eles atuam em conjunto, nada supera a eficiência produtiva no campo e nos segmentos das cadeias produtivas de alimentos, fibras e matérias-primas as mais diversas.A sociedade em geral, a mídia e até muitos profissionais da agronomia são influenciados pela interpretação errada do termo agronegócio, associado quase sempre apenas aos grandes negócios da produção de soja e milho.O que ainda se vê no meio rural é uma intensificação do uso de modernas tecnologias e automação por um número limitado de produtores que têm acesso ao conhecimento. A grande maioria, em especial os pequenos agricultores, tem acesso muito limitado ao conhecimento e às novas formas de produção.Recentemente, em uma feira de tecnologia para hortifrúti ocorrida em Holambra (SP), tive a oportunidade de atender um número expressivo de pequenos produtores no estande da Conplant. Eles estavam deslumbrados com tantos produtos e serviços disponíveis, mas, ao mesmo tempo, desiludidos por não terem qualquer assistência para selecionar as melhores opções. Essa preocupação vem de longe. Acredito que, no Brasil inteiro, o que vemos é um gradual afastamento do Estado da assistência técnica ao produtor rural. Hoje não erramos em afirmar que esse serviço não é prestado pelo governo ao pequeno produtor. Temos então no campo, por um lado, uma enormidade de possíveis clientes e, de outro, milhares de engenheiros agrônomos formados anualmente nas centenas de escolas de agronomia em todo o país. Muitos deles têm como única opção para atuar profissionalmente serem vendedores de lojas ou empresas. Muitas vezes, essa é a única possibilidade de assistência ao alcance dos agricultores.Já os grandes produtores têm acesso aos especialistas e assim conseguem produzir com muito mais segurança e sustentabilidade. Será que o pequeno produtor deve se conformar em ficar sem assistência? Ou, se organizado, poderia participar de forma coletiva e conseguir esse apoio?É fundamental a organização dos agricultores e dos agrônomos. Todos sabemos que as cooperativas e associações poderiam ser uma saída para esse dilema. Os engenheiros agrônomos estão preparados para liderar produtores. O Estado deve também participar oferecendo a estrutura disponível nas próprias Secretarias de Agricultura para ajudar a oferecer os serviços essenciais de treinamento, defesa agropecuária, entre outros. A exemplo de outros profissionais, como médicos, os técnicos em agronegócio poderiam criar suas próprias cooperativas. E a pergunta de sempre: quem paga a conta? Aí vem a criatividade. Na Espanha, por exemplo, uma parte dos financiamentos bancários paga a assistência técnica. Na Holanda e em alguns Estados americanos, a pesquisa e a difusão da tecnologia são bancadas por uma fração dos produtos vendidos. E o produtor deve pagar a parte que lhe cabe, certamente de forma progressiva, levando em conta o resultado financeiro conquistado com sua participação no sistema. Um produtor pode não conseguir pagar um técnico sozinho, mas certamente pode arcar com uma fração do custo. Faz muito tempo que tenho essas propostas prontas. Muitos as consideram utópicas, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E isso pode acontecer se as associações e organizações de engenheiros agrônomos descobrirem que esse pode ser o caminho para o desenvolvimento e a realização profissional digna de seus associados. Quem sabe eu possa um dia me surpreender.
*Ondino Cleante Bataglia é engenheiro agrônomo formado na ESALQ em 1967, secretário-executivo da Fundação Agrisus e diretor-presidente da empresa Conplant Consultoria
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